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Salvador Sobral. “Vida de um transplantado cardíaco pode ser normal ao fim de um ano”
14 Setembro 2017
“Um transplante cardíaco não pode ser programado. Há um ‘timing’, claro, mas tem de haver sempre um tempo de espera para que apareça um órgão compatível com as necessidades do paciente”. A explicação é dada pelo cirurgião cardiotorácico Luís Baquero, coordenador do Departamento de Circulação do Hospital da Cruz Vermelha Portuguesa.
É este, aparentemente, o caso do cantor Salvador Sobral, o inédito vencedor português do Eurofestival da Canção, que realizou esta sexta-feira, nos Jardins do Casino do Estoril, o seu último concerto, antes do período de pausa na sua carreira, em que, de acordo com as suas próprias palavras, vai entregar o “corpo à ciência”.
“Um transplante cardíaco é uma intervenção simples do ponto de vista cirúrgico. É um procedimento normal, sem grande complexidade. Difícil é sempre encontrar um dador compatível com um coração em condições de ser transplantado”, explica Luís Baquero.
O cirurgião cardiotorácico, que fala sempre em termos genéricos, preferindo não abordar o caso do cantor, que não conhece do ponto de vista clínico, adianta que “a cirurgia dura três a quatro horas e é indolor para o paciente, a não ser a dor da cicatriz, mas que vai reduzindo à medida que os dias passam”.
Apesar da “simplicidade” do processo cirúrgico, há complexidade nos procedimentos antes da operação. “Um coração quando é retirado do dador só pode estar quatro a seis horas fora do corpo do recetor”, acrescenta o diretor do Hospital da Cruz Vermelha, frisando que o “órgão deve estar acondicionado em ambiente frio, a quatro graus, até seis horas”. “Por exemplo, se eu for ao Porto buscar um coração para um paciente que está em Lisboa à espera do transplante, tenho até seis horas para manter o coração em condições”.
No vídeo em que anuncia a paragem na sua carreira, Salvador não especifica quanto tempo estará fora dos palcos. Nem podia. “O pós-operatório tem uma duração variável, depende da forma como o órgão reage ao novo corpo”, explica o médico. “Temos sempre de submeter o doente a uma imunosuperação para evitar a rejeição”. Algo que acontece “com alguma regularidade. “A possibilidade de rejeição existe, como em qualquer outro órgão, mas é leve, e pode ser tratada com medicação”, defende Luís Baquero, que alerta, porém, para outra preocupação: “A partir dos seis meses de transplante o que me preocupa sempre mais é a possibilidade de infeções. São mais perigosas do que a própria rejeição, porque o doente não tem as suas defesas ativas”, sublinha.
Depois do transplante, um doente sem complicações pode ir para casa ao fim de 15 dias. “Um transplantado de coração pode ter uma vida normal. Mas tem de ser seguido com análises periódicas, durante um ano, para monitorizar a resposta que o organismo está a dar”. Ultrapassada esta fase, defende Luís Baquero, o paciente “pode fazer uma vida normal, até com uma atividade física normal”.
O coordenador do Departamento de Circulação do Hospital da Cruz Vermelha ressalva, porém, que, “ao fim de dez anos de transplante as probabilidades de sobrevivência andam à volta dos 65%”. Além disso, “quando há uma falência do órgão, é possível um paciente ser transplantado uma segunda vez, mas aí já entra em equação a componente ética, porque na lista de espera ficam à frente os doentes que nunca foram transplantados”, conclui.
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