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Conheça as 3 situações patológicas mais frequentes do aparelho digestivo
29 Maio 2018
Dores na zona abdominal, flatulência ou diarreia são alguns dos sintomas que estão na origem das patologias do aparelho digestivo. Conheça, aqui, algumas das mais frequentes.
Dispepsia
Caraterização da patologia e sintomas
Dispepsia é um termo de origem grega que significa má cozedura ou má digestão. Trata-se de uma entidade com sintomas relativamente vagos, sendo de difícil definição, habitualmente referida como dor ou desconforto da parte superior e central do abdómen, geralmente referido como “estômago”. As queixas podem ser contínuas ou intermitentes, relacionadas ou não com as refeições e tão variadas como azia, enfartamento, distensão abdominal, flatulência ou náuseas.
É difícil ter dados sobre a sua prevalência, calculando-se que represente 20 a 50% das consultas de clínicos gerais.
Diagnóstico e tratamento
A predominância de alguns sintomas podem orientar-nos para subgrupos, como a dispepsia ulcerosa, com características semelhantes às habitualmente encontradas nos doentes com úlcera gástrica ou duodenal ou a dispepsia de tipo refluxo, com predomínio de queixas associadas ao refluxo gastro-esofágico, sendo que grande parte será inespecífica e de tipo funcional, com exames complementares, como a endoscopia digestiva alta, normais.
Frequentemente será necessária a realização de uma endoscopia alta, naturalmente dependendo da idade do doente, do tempo de queixas, da sua resposta a medicamentos simples, como antiácidos ou procinéticos (medicamentos que estimulam o esvaziamento gástrico), como a domperidona e outros.
A atitude correcta passa por uma consulta com o médico de família ou outro clínico geral que depois decidirá, em função de factores tão diversos como a idade do doente (é muito diferente aos 20 ou aos 50 anos), a presença de factores de alarme como, o emagrecimento ou o tempo de persistência da sintomatologia. O tratamento deve começar pela correcção de factores como o tabagismo, o consumo imoderado de bebidas alcoólicas, excessos alimentares, quer em quantidade e horários, quer em qualidade (excesso de café, picantes, condimentos, etc.), toma de antinflamatórios e analgésicos, tantas vezes de venda livre e/ou aconselhados por um familiar ou vizinho.
A sequência pode ser o envio a uma consulta de gastrenterologia ou o pedido de uma endoscopia digestiva alta.
Países há, como os Estados Unidos da América que, tendo uma baixa prevalência de cancro do estômago, optam, nos casos sem sinais de alarme, por fazer um teste de Helicobacter Pylori e a erradicação dos positivos, reservando a endoscopia para os doentes mais velhos ou os casos que não melhoram. Em Portugal, país de alta incidência do cancro gástrico e também de infecção do estômago pelo Helicobacter Pylori, este procedimento não pode ser defendido, sendo aceitável tratar com um inibidor da bomba de protões (omeprazol ou outro) ou um procinético, por curto período, para idades inferiores aos 40 anos, após o que, se não ficarem assintomáticos, se torna obrigatória a realização duma endoscopia.
Síndrome do cólon irritável
Caraterização da patologia e sintomas
A síndrome do cólon irritável, também conhecida como colite nervosa ou colite espática, é uma situação que afecta o cólon ou intestino grosso, causando dores abdominais sobretudo na parte inferior do abdómen, que podem ser do tipo cólica, flatulência, diarreia, obstipação ou alternância de ambas. Tipicamente as dores abdominais aliviam com a defecação. Pode aparecer muco nas fezes mas o sangue não faz parte do quadro e deve imediatamente alertar o doente para a necessidade duma consulta com o seu médico de família ou gastrenterologista.
Diagnóstico e tratamento
A síndrome do cólon irritável é uma situação crónica que necessita de tratamento prolongado, sendo que uma percentagem significativa de pessoas consegue controlar as queixas com mudanças da dieta, do estilo de vida e reduzindo a carga de ansiedade e stress. Os casos mais graves obrigam a apoio médico, preferivelmente da gastrenterologia.
Sendo uma situação nalguns casos incapacitante, não ocasiona qualquer acréscimo do risco de cancro colorrectal. Por outro lado, embora frequentemente se inicie em idades jovens (antes dos 40 anos) prolonga-se para idades em que o cancro colorrectal aparece e, não havendo diagnóstico seguro para o cólon irritável, que é sempre um diagnóstico de exclusão, não devemos protelar a realização da colonoscopia, sobretudo acima dos 50 anos. A realização da colonoscopia deve ser antecipada se surgirem sinais de alarme, como emagrecimento, dor ou diarreia nocturna, perdas de sangue, anemia por perda de ferro ou dores intensas que não aliviam com a defecação, para além da presença duma história pessoal ou familiar de tumores.
São frequentemente referidos factores desencadeantes ou agravantes, como alergias ou intolerâncias alimentares, stress ou factores hormonais, sendo certo que o cólon irritável é muito mais frequente no sexo feminino do que no masculino.
É sempre útil uma reeducação quer do estilo de vida, procurando ter horas de descanso adequado e redução de situações stressantes, quer alimentares, criando horários de refeições com calma, evitando alimentos mais propensos à formação de gases como o grão, feijão, etc., reduzindo as bebidas com gás e adoçantes artificiais, evitando refeições volumosas, não se deitar pouco tempo depois de comer, etc.
Naturalmente existe uma panóplia de medicamentos, desde os pré-bióticos e pró-bióticos, medicamentos reguladores das contracções intestinais e outros mais específicos, a usar sempre e só sob orientação médica.
Pólipos do cólon e rastreio do cancro colorrectal
Caraterização da patologia
Os pólipos do cólon são tumores que se originam por alteração da normal renovação das células, neste caso, do cólon. Havendo vários tipos de pólipos, com diferente risco de malignização, isto é, transformação em cancro, os que mais nos interessam, os adenomas, pólipos que se desenvolvem em zonas com glândulas, como acontece na mucosa do cólon, não podem ser considerados benignos mas como potencialmente malignos, ainda que só uma pequena percentagem se venha a transformar em cancro. Assim, a atitude correcta e que está expressa em várias guidelines, que são normas de orientação clínica, escritas por várias sociedades científicas, nacionais e internacionais, consiste na sua detecção e remoção, a partir dos 50 anos, caso não haja razões de risco acrescido, pessoal ou familiar, situações em que a idade do primeiro rastreio tem que ser antecipada.
Sintomas, diagnóstico e tratamento
Os pólipos podem ser pediculados (com forma de cogumelo) ou sésseis, sem pedículo, “pé” ou haste e, durante muito tempo (anos) não causam qualquer tipo de sintomas ou sinais, isto é, não doem nem sangram até muito tarde na sua evolução para cancro (até 15 ou mais anos), pelo que a única forma de os detectarmos é através de exames de rastreio. Uma vez detectados devem ser removidos, se possível no próprio exame, por uma polipectomia, uma cirurgia realizada através do endoscópio, mediante a introdução de uma ansa metálica por onde se faz passar uma corrente eléctrica que corta o pólipo, o qual deve ser retirado e enviado para exame histológico.
Estes exames de rastreio devem ser feitos a pessoas que se julgam, de outro modo, saudáveis, apenas por terem atingido um patamar etário de risco, no caso do cólon, aos 50 anos. Só para alguns órgãos foi definida a vantagem da realização de rastreios, como a mama, nas mulheres e a próstata, nos homens, além do cólon em ambos sexos. Ao contrário do rastreio, quando há queixas – dores, sangue, etc. – já não se trata de exames de rastreio mas de diagnóstico.
Está igualmente definido que, após uma endoscopia cuidada, em doente que tenha feito uma adequada preparação – para observar o cólon ele tem que estar sem conteúdo fecal – poderemos espaçar 5 a 10 anos as colonoscopias porque, como vimos, qualquer pólipo levará, salvo casos excepcionais, 8 ou 10 anos até se transformar em cancro. Contudo, há que ter em mente que, mesmo com cólon devidamente preparado e em exame realizado com toda a precaução e respeitando as recomendações, há sempre um risco, calculado em 10 a 15% dos casos, de deixar passar um pólipo por identificar e que poderá ser responsável pelo chamado cancro de intervalo , isto é, que aparece antes do prazo previsto de renovação da colonoscopia – isto deve-se a imponderáveis, como o facto de estar escondido atrás duma prega (o intestino não é liso, parece um acordeão), estar numa zona de espasmo, mesmo que transitório, etc.
Autor do artigo:
Dr. Mendonça Santos, médico gastrenterologista no Hospital da Cruz Vermelha
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