Saúde e Bem Estar
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O que pode levar um adolescente a ter um enfarte do miocárdio?
05 Agosto 2020
O QUE PODE LEVAR UM ADOLESCENTE A TER UM ENFARTE DO MIOCÁRDIO?
As doenças cardiovasculares são mais frequentes na idade adulta. O enfarte do miocárdio não é exceção. Caracteriza-se pela obstrução das artérias coronárias que asseguram a irrigação sanguínea do músculo cardíaco. Esta oclusão deve-se á deterioração progressiva destes vasos sanguíneos por um fenómeno que designamos por aterosclerose. Este processo pode afetar outras artérias do organismo, desenvolvendo-se de forma mais acentuada no adulto, podendo ser acelerado quando existem fatores de risco potenciadores desta doença.
Contudo existe evidência de que a deterioração das artérias pode iniciar-se precocemente, ainda na infância. Sabemos que existem formas de condicionar e atenuar esta evolução. Quando o enfarte do miocárdio ocorre no adulto a situação é entendida com uma certa normalidade. Quando o enfarte atinge um adolescente gera surpresa e perplexidade, por ser uma situação pouco comum.
O QUE PODE LEVAR A QUE ISTO OCORRA?
O EAM (enfarte agudo do miocárdio) no adolescente é raro. Todos ficamos consternados quando é veiculada a noticia da morte súbita de um jovem como consequência desta doença. É pouco comum mas pode acontecer em resultado da deterioração precoce das artérias coronárias.
As razões são diversas, mas estão na generalidade intimamente ligadas ao estilo de vida, o qual pode ser modelado por nós de forma a minimizar esta ocorrência.
Excluindo as anomalias congénitas das artérias coronárias, ou aquelas doenças congénitas do coração que podem condicionar alterações graves destas artérias e ainda uma doença especifica que pode resultar em enfarte do miocárdio e que é a Doença de Kawasaki, a grande maioria da doença coronária é adquirida e resulta de um conjunto de fatores de risco que isoladamente ou em associação com o estilo de vida podem afetar diretamente a estrutura e a função destas artérias.
Como fatores de risco que comprovadamente contribuem para a doença são:
- Genética individual
- Obesidade
- Hipertensão arterial
- Dislipidémia
- Diabetes
- Consumo do tabaco
- Estupefacientes
Todos estes fatores se intrincam com o estilo de vida podendo ser potenciados ou atenuados consoante as boas ou más práticas do nosso comportamento social. Uma vez identificados sabemos a forma de os contrariar. A informação e o conhecimento geral deste problema ajudam ao seu combate com maior eficácia. Poderíamos mudar o titulo deste artigo de uma forma talvez mais didática e questionar sobre o que podemos fazer para evitar que ocorra um EAM no adolescente com as suas consequências tão drásticas.
Convêm salientar que no adulto pelo facto da instalação da doença coronária ser progressiva e mais longa, o organismo desenvolve mecanismos de compensação que podem minimizar os efeitos imediatos do ataque cardíaco. Pelo contrário, no jovem, não há tempo para se desenvolverem esses mecanismos, podendo assumir o EAM um efeito imediato muito mais catastrófico.
Está comprovado cientificamente que a doença das artérias coronárias pode começar cedo ainda na vida fetal, consequência do comportamento materno em termos alimentares, consumo de tabaco e outras drogas. Este fenómeno leva á modificação das propriedades destas pequenas artérias através do processo de aterosclerose, em que vão perdendo as suas características morfológicas e funcionais, podendo culminar na sua obstrução completa, daí resultando o EAM.
Começando cedo, irão determinar os eventos da doença cardiovascular ao longo da vida. Para a grande maioria das crianças as alterações destas artérias são menores e podem ser minimizadas ou mesmo prevenidas com a adesão a um estilo de vida saudável desde o nascimento. Contudo em algumas crianças e adolescentes o processo é acelerado por causa da presença dos fatores de risco já enumerados. É crescente o número de crianças com obesidade, hipertensão arterial e diabetes que aparecem nas nossa consultas. A exposição ao tabaco tanto passiva como ativa e o consumo de drogas continuam a constituir um problema.
Estas são evidências para a promoção de um comportamento social saudável na criança o mais precoce possível, de forma a reduzir ao mínimo os fatores de risco que contribuem para a proliferação desta doença. De salientar o fator genético inerente a cada individuo e que explica qual o motivo que leva uns a serem mais vulneráveis que outros para esta doença. A prevalência e a extensão das lesões das artérias coronárias aumentam exponencialmente com o índice de massa corporal e com a magnitude da Hipertensão arterial.
Quando ocorre oclusão de uma artéria coronária a manifestação clinica mais comum é a dor no peito. Na criança a dor no peito é um sintoma comum, na maioria dos casos de causa benigna, não tendo nada a ver com o EAM. Tem impacto significativo, suscitando mais alarme sempre que é publicitado uma ocorrência deste tipo atingindo um adolescente com uma fatalidade. Após uma circunstância destas, é habitual haver maior recurso aos serviços de saúde por crianças com dor no peito, convencidos que é por causa do coração.
As dores no peito são comuns, mas são de causa benigna quase em 100% dos casos. Levam, no entanto, a um estado de angustia nos encarregados de educação com influencia direta nas limitações da atividade física e na frequência escolar dos seus filhos. Uma avaliação clinica cuidadosa pode descartar com segurança causa cardíaca para a dor. São pouco mais de 1% aqueles que são motivo de preocupação. Nestes a dor está geralmente associada com o exercício físico.
O EAM em indivíduos na faixa abaixo dos 40 anos é raro, mas vai acontecendo. Por isso é importante estarmos atentos a esta população, porque muitas vezes não é feito o reconhecimento precoce dos sintomas. Quando os sintomas surgem seja a dor no peito que não passa, seja uma indisposição com suores e mal-estar é necessário procurar o médico para investigar. Uma simples eletrocardiograma e umas análises laboratoriais podem ser a chave do diagnóstico. O fator tempo é essencial, não só para salvar uma vida, mas também para evitar o menor grau de sequelas possível.
O EAM é a principal causa do óbito em Portugal e nos outros países Europeus. Atinge cerca de 20 por 100.000 habitantes. Destes, cerca de 20% são jovens. O ataque cardíaco ocorre quando uma ou mais artérias que irrigam o coração ficam bloqueadas, provocando sofrimento das células da área cardíaca afetada. Trata-se de uma emergência médica que requer tratamento imediato.
O processo da aterosclerose produz o estreitamento e a rigidez nas artérias afetadas. Formam-se placas de gordura (colesterol) no interior das artérias, que ao romper levam à formação de coágulos que entopem as artérias. O resultado é o desencadear do EAM. A falta de irrigação pode provocar irritabilidade no tecido cardíaco favorecendo o desencadear de arritmias graves que podem provocar morte súbita. Esta ocorrência é um dos motivos principais que suscitaram o interesse na instalação de Desfibrilhadores nos locais públicos cujo papel é crucial para salvar estes doentes.
Medidas de prevenção primárias
Os dois aspetos primários da promoção da saúde cardiovascular são:
-Prevenir os fatores de risco associados à aterosclerose com medidas que foquem na adesão ao estilo de vida saudável.
- Identificar e manejar as crianças e os adolescentes em risco para aterosclerose precoce baseada na presença de fatores de risco estabelecidos incluindo a hipertensão, dislipidémia e resistência à insulina.
Promoção do estilo de vida saudável
A prevenção da doença cardiovascular e dos fatores de risco deve ser abordada nos cuidados primários de saúde promovendo um estilo de vida saudável
-Alimentação escolar saudável
-Refeições repartidas em pequenas porções
-Cortar nas gorduras e nos doces
-Existência de comissões de controlo da qualidade alimentar
Uma supervisão dos cuidados de saúde pediátricos de rotina deve promover e reforçar comportamentos cardiovasculares positivos focando-se nas seguintes áreas:
- Nutrição adequada
-Atividade física (corrida, caminhada, bicicleta)
-Vida sedentária (limitar o tempo de permanência á frente da TV, jogos, computador)
-Exposição ao tabaco e drogas
A saúde cardiovascular ideal na criança e no adulto está associada a uma baixa prevalência de fatores para doença cardiovascular no adulto.
O aumento do número de medidas ideais de saúde cardiovascular na população está intimamente relacionado com um menor risco de:
- Hipertensão
- Diabetes
- Dislipidémia
Nutrição:
Uma boa nutrição começando ao nascer traz profundo beneficio para a saúde
Aleitamento materno – Exclusivo nos primeiros 6 meses
Combinado pelo menos até aos 12 meses
O ALEITAMENTO MATERNO ESTÁ ASSOCIADO Á DIMINUIÇÃO DA PREVALÊNCIA DE OBESIDADE E DISLIPIDÉMIA
Ingestão de gorduras:
São necessárias, mas com critério
Deverão constituir 30% do total das calorias diárias da dieta
Gorduras saturadas:
Quem exagera no seu consumo tem maior probabilidade de ver o colesterol mau subir (LDL). É este que se deposita nas artérias e forma as placas. O seu efeito benéfico é o de promover também o aumento do colesterol bom (HDL) e servir de veículo para o transporte de algumas vitaminas importantes. Esta gordura encontra-se nas carnes gordas, no queijo, lacticínios, no ovo, no óleo de palma, no coco, pizzas, salsichas e chocolate. A sua ingestão deverá ser limitada a 7 a 10% das calorias totais.
Esta dieta apoia-se na ingestão dos frutos, vegetais, cereais integrais, feijão, peixe e carne magra.
Os restantes 20% da ingestão de gordura deve ser composto por uma combinação de gorduras insaturadas, as monoinsaturadas e as polinsaturadas.
Gorduras monoinsaturadas:
Contribuem para a redução do colesterol mau e estimula o aumento dos níveis do bom. Está presente no azeite, abacate, amendoim e nas nozes. O consumo desta gordura reduz o risco de doença cardiovascular.
Gorduras polinsaturadas:
Esta gordura é rica em ácidos gordos essenciais. O Omega 3 e o Omega 6. Reduz tanto o colesterol mau como reduz o bom. Está presente no Óleo de soja, girassol, canola, milho, atum, sardinha, frutos do mar, nozes e nas sementes de abóbora.
Os restantes 70% das calorias totais devem incluir 15 a 20% derivados da ingestão de proteínas e 50 a 55% de Hidratos de carbono na forma de cereais integrais.
Encorajar a ingestão de alimentos ricos em fibra
Reduzir a ingestão de bebidas açucaradas e outros alimentos açucarados.
ATIVIDADE FÍSICA
A atividade física de rotina deve ser encorajada desde a infância. Feita com regularidade está associada com a redução de risco de aterosclerose e de doença cardiovascular.
Deve ser adaptada de acordo com a idade. Todas as crianças com mais de 5 anos devem participar em atividade física moderada ou vigorosa 1 hora por dia. A atividade vigorosa deve ocorrer no mínimo 3 vezes por semana. Como exemplos desta atividade temos a corrida, a bicicleta, o futebol, o basquetebol, as artes marciais, a dança, a natação e outras.
Ás crianças em idade pré-escolar deve-lhes ser permitido atividade ilimitada em ambiente seguro.
É importante combater o sedentarismo limitando o tempo de permanência á frente dos ecrãs.
CONCLUSÃO:
O ENFARTE AGUDO DO MIOCÁRDIO NO ADOLESCENTE É UMA REALIDADE QUE NÃO PODEMOS IGNORAR;
É CLARAMENTE UMA DOENÇA DA CIVILIZAÇÃO;
É POSSIVEL REDUZIR SIGNIFICATIVAMENTE A SUA PREVALÊNCIA;
A DOENÇA DAS ARTÉRIAS CORONÁRIAS INSTALA-SE AINDA ANTES DO NASCIMENTO;
A SAÚDE CARDIOVASCULAR IDEAL CONSTROI-SE COM BASE NO CUMPRIMENTO DE REGRAS;
A DIETA EQUILIBRADA. O EXERCICIO FISICO. A SAÚDE MENTAL. A ELIMINAÇÃO DO TABACO E DROGAS SÃO OS PILARES FUNDAMENTAIS PARA ATINGIR O OBJETIVO;
VIDA SAUDÁVEL LEVA A UMA MELHOR SAÚDE CARDIOVASCULAR E TEM COMO RESULTADO UMA REDUÇÃO DO EAM NO ADOLESCENTE E UMA MELHOR QUALIDADE DE VIDA.
Bibliografia:
1- Sarah D de Ferranti , MD , Pediatric prevention of adult cardiovascular disesase:Promoting a healty lifestyle and identifying at-risk children
2- Peter WF Wilson , MD , Overview of possible risk factors for cardiovascular disease
3- George Sam Wang , MD , Cannabis ( marijuana): Acute intoxication
4- Robert L Geggel , MD , Enn E Endom , MD , Causes of non traumatic chest pain in children and adolescents
5- Sarah D de Ferranti MD , Overview of factors for development of atherosclerosis and early cardiovascular disease in childhood
Dr. Manuel Ferreira, cardiologista pediátrico no Hospital da Cruz Vermelha
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