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Os diabéticos e a Covid-19
29 Maio 2020
Médica Endocrinologia e Metabologia do Hospital da Cruz vermelha Portuguesa
Introdução: A diabetes é uma doença que pode acometer qualquer pessoa em qualquer parte do mundo, de qualquer classe social, raça, idade e sexo. Tem vindo a se tornar cada vez mais frequente. Em 2017 estimava-se que 451 milhões de adultos no mundo tinham diabetes e acredita-se que em 2045 esse número irá elevar-se para cerca de 693 milhões. Estima-se que cerca de metade da população com diabetes desconheça possuir a doença. Em Portugal, o cenário não se difere. Estudos que estimam a frequência de diabetes na população, apontam um aumento significativo nas últimas décadas, nomeadamente a partir dos anos de 2001 a 2003. De acordo com os dados da Sociedade Portuguesa de Diabetes, a frequência estimada da diabetes na população portuguesa com idade compreendida entre os 20 e os 79 anos (7,7 milhões de indivíduos) foi, em 2015, de 13,3%.
O que é a diabetes? A diabetes é um aumento dos níveis da glicose no sangue (açúcar) acima do adequado, de forma persistente.
Por que ocorre a elevação de glicose no sangue na diabetes? A glicose é a principal fonte de energia para nosso organismo. Ela é obtida a partir dos alimentos ingeridos, principalmente os ricos em hidratos de carbono (pães, cereais, massas, frutas, doces) e nosso organismo também é capaz de produzi-la no fígado durante o jejum a partir da gordura e das proteínas. Quando o alimento chega no estômago e começa a digestão, inicia-se um processo que leva a produção de um hormônio pelo pâncreas denominado insulina, que atua facilitando a entrada do açúcar nas células para que esse possa ser utilizado como fonte de energia. A diabetes se desenvolve quando ocorre uma inadequação na produção e/ ou na ação da insulina, o que leva a elevação dos níveis da glicose.
O que uma pessoa com diabetes sente? A grande maioria dos pacientes pode não apresentar nenhum sintoma, mas a medida que os níveis de glicose se elevam no sangue e a doença progride, podem sentir sede excessiva, fome, perda de peso e aumento da frequência da urina, inclusive com necessidade de levantar-se diversas vezes a meio da noite para urinar. A persistência de níveis elevados de glicose gera diversas alterações no funcionamento do organismo que podem acarretar danos persistentes. A longo prazo as pessoas com diabetes podem apresentar problemas nos rins, olhos e nervos, além de terem maior risco de sofrerem doenças do coração e dos vasos sanguíneos. O tratamento adequado, com o objetivo de manter os níveis de glicose normais ou o mais próximo disso, podem prevenir os referidos sintomas e danos aos órgãos do corpo.
Como se diagnostica a diabetes? Atualmente diagnostica-se a diabetes quando a glicose de jejum encontra-se igual ou maior que 126mg/dL, quando a glicose após sobrecarga de glicose ou fora do jejum for igual ou superior a 200mg/dL e/ou quando a hemoglobina glicada for igual ou superior a 6,5%. Em 2001, os valores de glicose de jejum e pós alimentar eram os mesmo utilizados hoje, contudo a hemoglobina glicada não era utilizada para fins de diagnóstico, mas sim para fins de acompanhar o controle da diabetes. Utilizava-se muito a curva glicêmica para diagnóstico.
Como tratar a diabetes? A base do tratamento da diabetes é a educação. Ela inicia-se em conhecer a doença, a sua característica crônica, o que significa não ter cura e ter sempre que ser acompanhada e controlada. É necessário perceber a importância da modificação de hábitos alimentares, prática de atividade física e o uso regular das medicações para controle da diabetes, bem como das eventuais doenças afins, tais como a hipertensão, o colesterol elevado e problemas no coração e vasos. Tem vindo a crescer o conceito de que o tratamento da diabetes deve ser individualizado de acordo com o tipo de diabetes, as características de cada pessoa, como idade, excesso de peso, existência de outras doenças, expectativa de vida e etc.
Nesse contexto hoje, em comparação a 2001, há uma disponibilidade e diversidade muito maiores de produtos dietéticos para consumo em Portugal, o que vem tornando mais fácil a adesão à dieta. A consciência sobre a importância do exercício físico também evoluiu de forma significativa nesses 18 anos, bem como o número de ginásios e a qualidade dos profissionais de educação física na assistência a pessoas portadoras de doenças crônicas.
Relativamente ao tratamento com medicamentos, as pesquisas nessa área evoluíram de forma significativa nas últimas décadas. Hoje dispomos de diversos medicamentos orais e injetáveis para controlo dos níveis de açúcar, que conseguem atuar de formas diferentes podendo ser utilizados em conjunto para a melhora dos níveis de açúcar. Os novos tratamentos além de mais eficazes, são também melhor tolerados pelos utentes, que tendem a manter o seu uso, a significar melhor adesão. Ainda, hoje para os diabéticos com obesidade, há o recurso da Cirurgia Metabólica que vem se consagrando como uma eficaz arma no tratamento da diabetes. Em contrapartida, em 2001 em Portugal as possibilidades de terapêutica eram restritas, pois haviam poucos medicamentos disponíveis para tratamento via oral, e também poucas formas de insulina. Com isso, estudos evidenciam uma maior parcela da população que consegue atingir os níveis de glicose e hemoglobina glicada dentro das metas de tratamento em comparação ao que se via em 2001. Isso se reflete em menores taxas de complicações, melhora da qualidade de vida dessas pessoas, sendo a diabetes cada vez menos uma doença incapacitante e estigmatizante.
Como saber se a diabetes está controlado? As principais ferramentas para se avaliar a resposta do diabético ao tratamento é a verificação dos níveis de glicose de jejum e pós alimentar e da dosagem da hemoglobina glicada a partir de análises feitas ao sangue. A hemoglobina é um componente dos glóbulos vermelhos que tem sua estrutura modificada em presença de níveis elevados de glicose. Quanto maior a proporção dessa hemoglobina glicada, significa que maiores estavam os níveis de açúcar. Uma vez que os glóbulos vermelhos persistem por 3 meses no corpo, essa proporção de hemoglobina representa a média dos níveis de açúcar no sangue dos últimos 3 meses. Isso é particularmente importante, pois alguns pacientes apresentam a glicose do jejum normal ou razoável, mas ao longo do dia ela sobe, a hemoglobina glicada também irá elevar-se o que indicará ao médico necessidade de ajuste da medicação. Uma outra ferramenta é a dosagem da frutosamina, uma proteína no sangue que reflete os níveis de açúcar do período de 1 mês. Hoje é menos utilizada.
Além disso, uma das áreas que mais cresce é o uso das tecnologias em diabetes, dispondo-se hoje de medidores de glicose modernos e muito precisos e aplicativos de smartphones e computadores que auxiliam enormemente na adesão e controlo da diabetes, nomeadamente dos que necessitam utilizar insulina. Em 2001, o cenário era completamente diferente: a hemoglobina glicada não era ainda disponível em alguns centros, além de ter um custo elevado o que limitava sua utilização. Nessa época utilizava-se mais a glicose do jejum e a frutosamina. Não havia a gama de sensores de glicose que tem hoje, sua precisão era menor, a picada a ponta de dedo tinha que ser maior e era mais dolorosa o que fazia com que muitos pacientes não a fizessem com a frequência que necessitavam. Não haviam os smartphones e os aplicativos para auxiliarem no controle.
Quando fazemos um comparativo de 18 anos de história da diabetes em Portugal, observa, que o leque de opções de tratamento aumentou bem como sua eficácia. Também evoluíram os métodos diagnósticos e de verificação do controlo dos níveis de glicose no sangue. Hoje a pessoa com diabetes já não se constrange de o dizer e pode levar uma vida praticamente normal com a modernidade e tecnologia a seu serviço. O diagnóstico precoce da diabetes e a otimização do seu tratamento e seguimento tornam-se fundamentais para a melhora da qualidade de vida dessas pessoas.
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